Informação sustentável para uma vida mais consciente

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PENSO, LOGO SOU SUSTENTÁVEL

A opinião de quem sabe: Sara Vicente Barreto
Cathryn Lavery - Unsplash

Sara Vicente Barreto

Strategist. Challenger. Problem Solver. Social Entrepreneur. Mum.

Às vezes parecia que não conseguia respirar, um bloqueio momentâneo sem saber para onde me virar. Culpava a minha vontade de fazer tudo, o meu gosto por muita coisa e continuava a acrescentar coisas à lista de coisas a fazer. Ou que gostava de fazer. Quando era grande demais mudava de bloco, quando era um tópico novo mudava de lista. Refazia e procurava coisas para tirar, tinha coisas para ontem, hoje e daqui a 6 meses.

Precisava de as tirar da cabeça e por nalgum lado. O sufoco era menor. Ou pelo menos parecia. Até voltar a olhar para a lista outra vez.

Um caderno que me mudou a vida
No final da minha segunda licença de maternidade, lembro-me de estar sentada na minha mesa de jantar de lista em punho e pensar “se eu não estou a trabalhar e tenho isto tudo para fazer, como é que eu vou lidar com isto quando voltar a trabalhar 12 horas por dia?”. O pensamento foi angustiante e procurei relembrar-me que parte era perfeccionismo e se calhar nem tudo tinha de ser feito. Mas muito tinha. E muito era importante para mim, ainda que não imperativo para o mundo.
Alguns meses depois, foi num jantar com uma amiga que ela me mostrou o caderno que levava com ela e que usava para se organizar. Chamava-se bullet journal. Com uma rápida explicação pareceu-me que era exatamente o que precisava. Um sistema de organização flexível mas estruturado, adaptado a cada um e a cada tema. No uber para casa encomendei um caderno na Amazon e decidi experimentar. Como em tudo, a minha experiência foi feita com dedicação e já vou no 4o ano de bullet journaling. E mudou a minha vida, permitindo-me ser intencional.

Como funciona o bullet journal
Para muitos pode parecer um simples método de organização para o qual qualquer caderno serve. E na verdade, o ponto principal nem é o caderno, que vem vazio com apenas uma exceção – as páginas são numeradas. Passo a explicar as formas como me veio ajudar não só a organizar a minha vida de forma diferente, mas mais importante, a pensar na minha vida de uma forma diferente.
• Visão Diária Simples: o método é para lá de simples. Tarefas listadas em “bullets” para se puder cruzar quando feitas ou usar símbolos quando passam para outra altura. As tarefas que não são concluídas podem ser “migradas” para outro dia ou semana ou até mes. Se uma tarefa aparece muitas vezes na lista de tarefas a migrar, é obrigatório pensar “será que eu preciso mesmo de fazer isto?”. Se sim, é parar de procrastinar. Quem diz tarefas diz planos, objectivos, sonhos. b
• Visão Mensal: cada mês é planeado individualmente. O processo implica criar um calendário com os principais eventos do mês (sim, em papel, não em telefone) e ter um momento para pensar no que queremos completar nesse mês (as listas dos primeiros meses em que fiz este processo eram 3x maiores do que são hoje!). Mais importante, implica olhar para o mês anterior e ver o que foi feito ou não. O meu processo de “fecho de mês” é um momento essencial de reflexão e pausa que me permite não só sentir mais organizada mas também ter uma visão realista de tudo o que de facto consegui completar, apesar de tudo o que ficou em aberto.
• Future Log: esta é uma das minhas partes favoritas, e apesar da sua simplicidade permitiu uma enorme redução na ansiedade com tudo o que está para fazer. O Future Log permite ter uma visão sucinta dos próximos 6 meses para aquelas tarefas que claramente não vamos fazer hoje mas sim daqui a 3 meses ou quando estivermos de férias mas não nos queremos esquecer. Deixam de estar numa lista ativa mas estão num sitio onde nos dão a paz mental de não serem esquecidos.
• All in One e Flexível: não é um calendário com espaço e dias marcados. Cada dia é feito por nós e pode ter 1 linha ou 2 páginas, dependendo da fase. Não é apenas uma agenda, permite planear, refletir, até desenhar. As páginas numeradas permitem que este journal sirva para tudo. Pode ser para organizar tarefas, tirar notas numa conferência, fazer uma lista de compras de natal, escrever notas sobre um livro, fazer gratitudes ou apenas atirar pensamentos ao papel.

Sempre que há algo que nos queremos relembrar mais tarde basta usar o índice para anotar o numero da página e ser facilmente encontrado

Isto tudo por causa de um journal?
Eu sei, parece banal. Há muitas formas de organização e esta é apenas mais uma. O meu BuJo é usado “apenas” para a vida fora do trabalho. O meu apenas vem qualificado – mãe de 2, 2 ONGs, blog, podcast, business angel, business mentor e, até há um mês, com casas para organizar em 2 países. Ah, e VERY full time job. Os meus maiores momentos de tristeza vinham da realização de tudo o que não conseguia fazer, de sentimentos de culpa com o que ficava esquecido (especialmente para as crianças), com o sentimento de overwhelm que constantemente me assombrava achando sempre que estava a falhar em tudo. A conversa acabava sempre em
“Sara, mas se calhar tens é de fazer menos coisas”.
Com pesar retirava coisas (e sonhos) da lista. Com pesar dizia que não. E com surpresa vi que reduzir não funcionou. Quando comecei o BuJo, o meu tempo AUMENTOU. Eu sei, parece surreal. Há pouco tempo perguntaram-me num podcast se eu tinha uma máquina de parar o tempo. Se alguém tiver eu sou compradora, mas até lá, fico-me pelo bullet journal.
Foi este caderno cor de rosa (agora verde) que me permitiu viver a minha vida de forma intencional. Depois das crianças na cama, o tempo de transição para o ócio ou, no meu caso, “trabalho noturno” variava à medida que o meu cérebro cansado procurava identificar o que é que tinha para fazer. Passei a ter de imediato a resposta, a ir direto ao que precisava de ser feito e não perder tempo a ler emails irrelevantes ou a procurar as contas que estavam por pagar. Estava tudo à minha frente, incluindo o que era importante para a minha equipa na ONG, o que precisava de fazer para a família e também o que precisava de fazer para mim. Um milagre, uma lista que me incluía até a mim.

Da organização à reflexão
No primeiro ano, foi isto que um BuJo fez por mim. E só isto já me tinha chegado para me mudar a vida, tenho de admitir. Mas dado que o caderninho andava sempre na minha mala e fazia parte do meu ritual diário de caminho para o escritório ou início da noite, com o tempo foi incluindo mais partes da minha vida. Cada uma delas dava espaço a um novo artigo, mas deixo aqui algumas formas adicionais que se alinharam com uma forma de viver a vida de forma intencional, que requere mesmo o que a palavra diz, intenção.
• Achievements: todos os meses, o processo de fecho de mês original é apenas um fecho de tarefas e criação de novas. Contudo, rapidamente criei uma componente nova de olhar para trás e escrever tudo o que de facto consegui fazer em todas as áreas da minha vida. Permitiu-me não só criar uma consciencialização do que de facto é possível fazer num mês, mas também mais que tudo, permitiu-me iniciar cada mês com uma visão mais positiva e não com aquela sensação de “lá se foi mais um mês”.
• Goals: uma das formas como o bullet journal também é frequentemente usado é como goal tracker. Claro que convém haver um estabelecimento de objetivos primeiro, mas é um formato fácil para ajudar a monitorizar o que estabelecemos ser importantes para nós. No meu caso, dou o exemplo do meu objetivo #1 de aumentar os meus níveis de saúde e fitness. Como tal, tenho um gráfico simples para registar o consumo de água, o desporto, meditação e até já experimentei alimentação. Trabalhoso? Às vezes, mas também não tem de ser obsessivo. O impacto? Lembrar- me melhor de fazer cada uma destas coisas no dia seguinte. E refletir na importância de cada um se nunca as faço.
• Gratitudes: a prática de gratitude é um dos meus hábitos favoritos e um daqueles que sinto falta ao fim de uns dias sem ele. Todos os dias procuro escrever no mínimo 3 coisas do dia pelas quais estou grata. Parece um bocado lamecha. Mas a ciência confirma que é uma prática com efeitos bastante positivos na saúde mental. Para mim, funciona não como uma obrigação de encontrar algo bom no dia, mas mais que isso por uma procura de apreciar as pequenas coisas que acontecem todos os dias e de me lembrar delas.

168 Horas com mais Intenção

Cada semana tem 168 horas. Já pensaram? Muito mais tempo do que se calhar alguma vez pensámos. Vamos então avaliar. Se dormirem 8 horas por dia são 56 horas (e parabéns a quem consegue!). Vamos assumir 50 horas por semana, de trabalho, que no meu caso são até uma estimativa simpática. O que fazem com as restantes 64 horas? Caminho para o trabalho, refeições, tarefas da casa, desporto, ler, ver TV, estar com amigos. Conseguem encher as 64 horas?
Cada dia tem mais horas do que pensamos, cada semana dá para mais do que parece. Mas não quando andamos no sufoco a correr atrás do prejuízo. Acabamos sempre sem tempo para nada e a pensar em tudo o que temos para fazer. Seja qual for o método que encontrarem, o importante é que este permita que as 64 horas que sobram sejam vividas da forma que escolherem, apesar de terem de fazer tudo o que é preciso para uma vida funcional. Quando pensamos no tempo dessa forma, de repente se calhar até temos tempo para uma caminhada. Para um livro. Para ligar a alguém. Desde que seja importante, é possível. Apenas tem de ser intencional.