Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

UMA CONVERSA COM

Entrevista sem pressa
Ruben Branches /Fair Bazaar
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Filipa Veiga

Editora e professora de Yoga​

Diz-se que 3% da população está a começar a tornar-se mais consciente do mundo em que vive e a fazer realmente alguma coisa para o melhorar e o tornar mais sustentável. Catarina Matos, fundadora da marca Mind The Trash, faz parte dessa percentagem

Catarina Matos é um dos nomes mais importantes em Portugal no movimento desperdício zero, que defende a conservação de todos os recursos através de produção e consumo responsáveis, reutilização e recuperação dos produtos, embalagens e materiais, sem os queimar nem os deitar na terra, no mar ou no ar, ameaçando o ambiente e a saúde do ser humano e dos animais. Uma abordagem que promove uma mudança radical na forma como os materiais circulam na sociedade. Uma forma de estar na vida.

Como vê o mundo hoje?
Penso que hoje mais e mais pessoas vivem desligadas de si próprias e da natureza. As pessoas vivem num mundo de tecnologia, de pressa e de competição. Quando olho, vejo um mundo em que somos motivados apenas a apostar nas nossas carreiras. Estamos a esquecer-nos de nós. Na minha opinião, estamos a esquecer-nos da felicidade e a esquecer-nos de apreciar as pequenas coisas da vida.

O que podemos fazer para contrariar esse caminho?Acredito que muita coisa tem de mudar na nossa sociedade. A começar pela mudança da ideia de que o consumo é a chave para atingir a felicidade. Uma casa maior, um carro maior, roupas melhores, muito dinheiro… nada disso importa se não estamos em paz connosco próprios. Felizmente, isto está a mudar lentamente. Às vezes, perguntam-me o que penso sobre o sucesso. Para mim, não é ter muito dinheiro ou vender muito. O sucesso resume-se numa palavra: felicidade.

Quando despertou para esta questão?
Lembro-me de pensar na minha pegada ecológica quando ainda estava a estudar Arquitetura. Costumava ir ao supermercado com a minha mãe e questionava todos os materiais descartáveis que lá existem. Todo aquele plástico descartável simplesmente não fazia sentido para mim. Porquê deitar fora uma coisa que eu mal tinha usado?! Depressa comecei a evitar os plásticos e a comprar frutas e vegetais no mercado local. Também comprei um trolley para evitar os sacos de plástico. Depois fui viver para Londres e nunca esquecerei a minha primeira ida a um supermercado. Fiquei tão chocada! Era o apocalipse dos descartáveis! Tudo estava embrulhado em plásticos: as bananas, as uvas, as laranjas, os ananáses, as courgetes… Não foi fácil encontrar alternativas perto de casa, mas acabei por encontrar muito mais do que esperava. Descobri muitas soluções livres de plástico para o meu dia a dia: a escova da loiça natural e reutilizável, o champô sólido, o copo menstrual e muito mais! Londres foi definitivamente o meu despertar!

Foi nessa altura que criou a Mind The Trash?
Sim, a Mind The Trash começou por ser uma conta de Instagram para partilhar o que ia descobrindo e contar como isso estava a mudar a minha vida. Cada vez que vinha a Portugal visitar a minha família e os meus amigos, reparava que nenhum destes produtos que eu usava eram vendidos cá e que ninguém sabia sequer que existiam. Por isso, mais tarde, tive a ideia de criar a loja online. Mas a Mind The Trash não é só uma loja online que vende produtos sustentáveis. Trabalhamos arduamente para ser o mais perto possível do desperdício zero nos nossos escritórios e armazéns e esforçamo-nos para que a nossa loja pareça quase uma loja física, onde as pessoas nos conheçam e saibam como trabalhamos. Na Mind The Trash temos um ambiente de trabalho descontraído e lutamos pela transparência, pelo comércio justo, pela honestidade e pela sustentabilidade social e financeira.

Como aplica todas essas ideias no seu dia a dia?
Não faria sentido para mim ter a Mind The Trash se eu não seguisse aquilo que defendo na marca. O meu dia começa comigo a agradecer a vida que tenho e a fazer festas nos meus cães. Depois, é hora da rotina zero desperdício na casa de banho: tomo um duche com champô e sabonete sólidos e lavo os dentes com uma escova de bambu e uma pasta sem desperdício. O desodorizante e os cremes orgânicos e naturais, sem embalagens de plástico, também fazem pate da minha rotina diária. Para as minhas refeições, evito sempre ingredientes embalados, por isso abasteço-me de tudo o que preciso para cozinhar no mercado local ou em lojas a granel. Basicamente, a minha prática diária foca-se sempre numa pergunta: será que realmente preciso disto?

Como imagina o mundo perfeito?
Um mundo sustentável, em que vivamos perto da natureza, sem sofrimento nem exploração dos humanos e dos animais.

Se desse um conselho a quem nos lê, o que diria?
Não critiquem, apreciem. Não julguem, eduquem.

mindthetrash.pt