Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

PENSO, LOGO SOU SUSTENTÁVEL

A opinião de quem sabe
Renáta-Adrienn - Unsplash

Pedro Norton de Matos

Gestor e fundador do Greenfest

As efemérides têm o mérito de nos lembrar temas que, na sua grande maioria, são importantes. Nas datas referidas, vários são os eventos e discursos pomposos que têm eco nas redes sociais e outros meios de comunicação. Tal “buzz” é benéfico para a sensibilização e ajudará certamente muitas pessoas a passar à ação. É o ângulo virtuoso.
Contudo, correm o risco de banalização e de desvanecimento após o “hype” daquele particular dia, até porque são atropeladas por outras efemérides igualmente relevantes.
Assim, e para referir algumas efemérides recentes ligadas ao meio ambiente, assinalaram-se nos últimos meses o Dia Mundial da Vida Selvagem (3 Março); Dia Internacional dos Rios (14 Março); Dia Mundial da Floresta e da Árvore (21 Março) ; Dia Mundial da Água (22 Março); Dia Mundial da Terra (22 Abril) ; Dia Internacional da Biodiversidade (22 Maio); Dia Mundial da Energia (29 Maio) ; Dia Mundial do Ambiente (5 Junho) e o Dia Mundial dos Oceanos (8 Junho); Dia Mundial do Combate à Seca e Desertificação (17 Junho)…. e tantos outros.

Poderia continuar a lista com datas referencia para todos os temas, nomeadamente Sociais, Saúde , Alimentação e Educação, mas destaco o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil (12 Junho), pois tem também muito a ver com a industria têxtil . Para uma leitura exaustiva recomendo a consulta de todas as datas mundiais que não cabem individualmente no calendário e por isso, algumas delas sobrepõem-se. Infelizmente também se constata que, em alguns casos, a preocupação e interesse só volta no ano seguinte.

O grande desafio que enfrentamos é o de como passar o nosso foco do efémero e por vezes superficial dia em particular, para os comportamentos de todos os dias ? O que se passa no “day after”?

De acordo com a neurociência, existe um “gap” entre aquilo que compreendemos e sabemos que tem sentido fazer, e aquilo que efetivamente fazemos e nos comprometemos a realizar. Diminuir ou eliminar essa diferença, é igualmente desafiante e passará por mudanças comportamentais.
Com efeito, e ainda segundo os estudiosos da ciência do comportamento, os comportamentos repetidos geram hábitos. Se tivermos comportamentos saudáveis, criamos hábitos saudáveis que se repercutem no quotidiano e impactam positivamente as comunidades em que nos inserimos. Nesse sentido, custa tanto criar um bom como um mau hábito… é só repetir, repetir e repetir… pois são interiorizados e passam, sem esforço, a fluir naturalmente.

Antes de voltar ao tema comportamental nos domínios ambiental e social, quero destacar também o papel da Educação, Investigação e Desenvolvimento tecnológico. De facto, a Ciência e Tecnologia , têm um papel fulcral e constituem factor de esperança para as necessárias e urgentes disrupções a operar no modelo de desenvolvimento que tem vindo a ser adoptado na globalização, sobretudo a partir da grande aceleração ocorrida no pós segunda grande guerra mundial. Essa aceleração, trouxe a par de inegáveis progressos em muitos indicadores sócio económicos, também incontestáveis desequilíbrios transversais .
Importa aqui refletir sobre o enorme custo ambiental e social de muitos dos “progressos” alcançados na sociedade do hiperconsumo (mundo ocidental) que geraram uma cultura de desperdício de meios e recursos , para além de muito lixo que não se deita “fora”, pois fica cá todo cá “dentro”, em terra, rio, mar ou atmosfera.
Para contrariar essa cultura e hábitos de desperdício, há que voltar à essência, ao “back to basics”, e tal como nos ensina a natureza, aproveitar tudo. É o principio da economia circular em que “nada se perde e tudo se transforma“ segundo Lavoisier.

A indústria têxtil e da moda, tal como todas as outras, tem muito caminho a percorrer. Desde logo, é um imperativo contrariar a “imposição“ da moda que não é mais do que uma artificial obsolescência programada. As cores e formas que mudam frequentemente, pretendem manter o ciclo do consumo exacerbado, esquecendo a funcionalidade, conveniência, durabilidade e reutilização que deveriam ser os princípios orientadores.
Felizmente vão-se também multiplicando bons exemplos de marcas e empresas que incorporam os valores da sustentabilidade nas suas práticas. Cabe ao consumidor, nas suas decisões de compra ou recusa, fazer ouvir a sua voz, validando ou penalizando as ofertas. Vão-se desenhando novas tendências de consumo, sobretudo nas novas gerações, com critérios e valores da sustentabilidade. As escolhas, traduzem novos comportamentos e são interpretadas ou antecipadas pelas marcas que refletem no seu portfólio. Muitos consumidores valorizam toda a vida do produto, desde as matérias primas, sua qualidade e proveniência até ao facto de incorporarem ou não exploração de mão de obra infantil ou outra. Valorizam também factores como bem estar animal , consumo de água, e comércio justo.
No dia a dia, o cidadão tem inúmeras oportunidades de fazer as suas escolhas traduzidas em comportamentos observáveis, em casa, no escritório e junto das comunidades em que se insere.
Assim, as efemérides podem não ser efémeras e sim facilitadoras de “conversão” de mais cidadãos, tornando o movimento de regeneração do planeta imparável.