Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

DIZ-ME O QUE FAZES, DIR-TE-EI QUEM ÉS

Inquérito para quatro estações
Eliana Fernandes

Fair News

Eliana Fernandes tem 35 anos e é uma alma criativa. Nos últimos anos, foi encontrando um maior conforto numa vida mais simples e minimalista, ligada à natureza e a um consumo mais consciente.

Qual o hábito sustentável de que mais se orgulha?
Sem dúvida, de comprar peças de roupa ou calçado apenas quando preciso deles. Tenho no meu passado uma fase muito obscura de grande consumismo de vestuário. Nessa altura, entrava numa loja de roupa (pelo menos!) todas as semanas. As lojas que frequentava eram na maioria muito pouco sustentáveis, mas o maior problema era a quantidade e a falta de necessidade que eu tinha das peças que comprava. Era uma satisfação imediata, que me deixava contente no momento, mas que se perdia muito pouco tempo depois e que, por isso, me levava a comprar mais. Tomar essa decisão foi muito fácil, na realidade, porque era algo que queria muito mudar em mim há bastante tempo. É um hábito que deixou a minha vida mais leve e mais feliz desde então.

Qual a mudança ecológica que quer fazer, mas ainda não conseguiu?
Ter uma casa mais sustentável. Digo “mais” e não “totalmente” porque prefiro desejar a par com a realidade. Gosto muito do impacto que os pequenos passos têm em mim ou na sociedade, como ter um painel solar, janelas térmicas ou aproveitar a água das chuvas. Pode parecer uma ideia megalómana quando há tantas outras mais pequeninas que se podem fazer primeiro. Mas com essas eu não me preocupo tanto, porque basta querer.

Qual o seu objeto “verde” preferido?
Entre muitos, escolho aquele que tem menos glamour, não porque tem menos glamour, mas porque o adoro simplesmente e me faz sentir novamente criança sempre que o uso: o meu balde da banheira! Sempre que se toma banho cá em casa, as primeiras águas que se gastam no aquecimento vão para o balde. Depois, é só ser criativo! A água pode servir para regar as plantas, para substituir algumas descargas da sanita, para lavar peças de roupa, para lavar a loiça… é uma forma de poupar na carteira e ser mais amigo do ambiente. E não é por acaso que digo que esta rotina me faz voltar a ser criança, porque os meus pais o fizeram durante toda a minha infância. Quem sai aos seus…

Quem a inspira?
Claro que existem algumas pessoas que me inspiraram e me inspiram no meu processo de consciência ambiental, mas acho sempre que o ser humano é demasiado imperfeito e tem muitas incongruências, o que me remete imediatamente para algo que, para mim, é perfeito e que, por isso, me consegue inspirar na plenitude: a Natureza e os seus ecossistemas. A forma como todos os organismos vivos se complementam e precisam uns dos outros para sobreviver, onde nada está a mais, nada fica de fora (até mesmo as baratas!) está para lá de qualquer inteligência artificial. E que seja apenas porque o trabalho dela, da Natureza, é o que nos permite continuar a acordar todos os dias.

Que livro e que filme lhe foi inspirador?
O livro é muito fácil, e, no entanto, pode passar bem despercebido, porque talvez não faça parte da avalanche de conteúdos sobre ecologia, ambiente e sustentabilidade que nos caiu em cima nos últimos tempos. Até porque não tem texto e é para crianças. É da Planeta Tangerina e chama-se Um dia na praia. É uma história com imagens, muito simples e que mostra como é importante não só olhar o ambiente que nos rodeia como também refletir sobre a nossa responsabilidade de participarmos, desde cedo. O filme é mais difícil, mas vou seguir a ideia da minha resposta anterior e escolho “The biggest little farm”. A primeira pessoa que me falou dele tinha acabado de se mudar para uma quinta numa aldeia no interior de Portugal e falava de concretizar o seu sonho, aos 60 e tal anos. Enquanto falava sobre ele, chorava… e mais não digo. Aconselho, é uma pequena obra-prima de Natureza e de humanidade.

Em que lugar se sente feliz?
É uma descoberta muito recente, mas atualmente é mesmo aí, na minha horta. Acho que não é nada original nos tempos que correm, e ainda bem que assim o é.

O que mais valoriza nas pessoas à sua volta?
A capacidade de mudar, as vezes que forem necessárias, e evoluir. E para esta vou roubar a outro que o escreveu e cantou melhor do que eu o escreveria: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo“. (Grande Raul Seixas…)

Se pudesse mudar uma política, qual seria?
É muito difícil escolher uma só política, mas para aqui, dentro do tema ambiental e ecológico, escolho políticas relacionadas com o desperdício para que, na esfera privada, pudessem pôr um fim às propriedades abandonadas e, na esfera pública, dessem um fim mais útil a determinados espaços como canteiros, rotundas ou jardins, promovendo a plantação de culturas alimentares, de reservatórios de água ou instalação de energias renováveis.

Qual a maior liberdade a que podemos aspirar?
A liberdade de sonhar, porque só sonhamos quando a possibilidade de um futuro bom é possível: um futuro sem guerras, sem discriminação, sem escassez de recursos e sem afirmação de poder de uns sobre outros, do Homem sobre o Homem e do Homem sobre a Natureza.

Qual a sua visão de um mundo melhor?
É uma visão que tenho cada vez mais para tudo na vida, para o trabalho, para a vida pessoal, na relação connosco, com os outros e com tudo o que nos rodeia, que é uma visão de equilíbrio. Quando a balança pende para um dos lados, é inevitável que o outro fique prejudicado. Como não vivemos sozinhos no mundo, neste planeta, podemos a qualquer momento trocar de lado na balança, por isso acredito que é obrigação de todos nós trabalharmos para esse equilíbrio.

Se o Planeta nos pudesse falar, o que imagina que nos diria?
Pode cantar em vez de falar? 
“All by myself
Don’t wanna be
All by myself
Anymore.”,