Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

UMA CONVERSA COM

Entrevista sem pressa
Pedro Lucas

Fair News

Com a abertura da loja Maria Granel, Eunice Maia regressou às suas raízes minhotas  de comunhão com a natureza e com aquilo que ela nos dá. Agora, neste momento de crise, acredita temos uma oportunidade para mudarmos comportamentos e estarmos mais conscientes do planeta em que vivemos.

 

Como vê o mundo nos tempos que correm?
O que está a acontecer à nossa casa comum é uma profunda crise. E se é verdade que uma crise sempre traz consigo sofrimento, também é verdade que deve ser encarada como uma oportunidade. Este é um pedido do Planeta para revermos o nosso comportamento. E por isso este é  o momento de lermos os sinais do tempo e reinventarmos a relação que temos connosco, com os outros, com o mundo. Podemos estar isolados, mas não estamos sozinhos. O combate ao vírus implica o nosso confinamento e um certo sentido de solidão, mas derrotá-lo implica que colaboremos como nunca, que pensemos mais nos outros do que em nós. O vírus está a ensinar-nos a parar, a abrandar, a olhar para dentro, para o que fazemos e para o que somos. O vírus é imune ao que temos e ao estatuto social. Esta aprendizagem da lentidão e do despojamento veio também mostrar-nos a importância dos laços de afeto, de vizinhança de cooperação. O vírus veio ensinar-nos a amar melhor. Tudo isto pode ser transferido para o ativismo ambiental e para a situação de emergência climática que vivemos. E que exige o mesmo tipo de ações. Este é um reset, um abanão global que vai (tem de!) dar lugar ao restart. Recomecemos, pois. Não precisamos de fazer tudo de uma só vez. Mas precisamos de começar. Um passo de cada vez. Mas a caminho. Recomecemos.

 

Como é que a Maria Granel contribui para a situação atual?

Como mercearia biológica 100% a granel e zero waste store, disponibilizamos às pessoas alimentos de elevada qualidade, na quantidade exata de que precisam, permitindo recusar embalagens de uso único. Ou seja, ajudamos não só a prevenir a geração de resíduos, mas também a combater o desperdício alimentar, por meio de um consumo mais responsável. Além disso, somos muito mais do que uma loja, encaramos o nosso trabalho como missão e, por isso, em todas as nossas plataformas (redes sociais, blogue, podcast, programa z(h)ero,…), partilhamos ideias e dicas muito práticas, pequenos gestos que permitam inaugurar ou dar continuidade a uma transição ecológica.

 

Como surgiu a ideia da loja Maria Granel?

Quando um açoriano e uma minhota sonham juntos, é isto que acontece… (sorriso) A ideia nasceu em 2013 e foi sendo alimentada e maturada até 2015. As nossas memórias de infância estão particularmente associadas ao campo e à terra. Essas raízes definiram a nossa identidade. Quisemos dar continuidade a esse património afetivo. E este projeto é mesmo isso: um regresso às origens, um regresso a casa. Estudámos o mercado internacional (e falámos com os fundadores de lojas pioneiras em todo o mundo) e nacional de forma profunda e achámos que fazia todo o sentido introduzir em Portugal a venda a granel de produtos biológicos, dispensando totalmente as embalagens. Neste percurso, conhecemos Bea Johnson, a nossa maior inspiração. Em junho de 2015, poucos meses antes da abertura da nossa loja, vimos na Internet, completamente por acaso, uma reportagem de um canal de televisão norte-americano sobre Bea Johnson e o seu estilo de vida. Nunca tínhamos ouvido falar da Bea nem da expressão zero waste, não fazíamos a mínima ideia do que se tratava. Na altura, o que mais nos fascinou — por motivos óbvios — foi o momento em que a Bea, acompanhada pelos jornalistas, foi às compras a uma grande superfície e, carregada com os seus grandes cestos cheios de frascos, explicou, enquanto se abastecia diretamente dos dispensadores, a importância decisiva do granel para a diminuição dos resíduos produzidos em família. Foi o primeiro contacto com a sua filosofia de vida e foi também o momento em que tudo começou a fazer sentido e a ganhar ainda mais força na nossa ideia. Confrontados com os números do desperdício alimentar e com a quantidade de resíduos que cada português gerava na altura – 440 kg por ano (segundo o relatório anual da Agência Portuguesa do Ambiente, em 2014), decidimos que quem visitasse a nossa loja poderia (e deveria!), tal como Bea fizera durante aquela reportagem, trazer os seus próprios recipientes e dizer “não” às embalagens, introduzindo assim, de forma pioneira, o sistema BYOC (Bring Your Own Container) no mercado nacional. Este passo revolucionário (e arriscado, pois não sabíamos qual iria ser a reação do público!) foi completamente inspirado neste testemunho e neste exemplo da Bea.

 

As pessoas aderiram de imediato?

Posso dizer que, nas semanas anteriores, estávamos cheios de receio; foram noites de insónia, com medo de que as pessoas não percebessem o conceito e não aderissem. Mas foi um sucesso, felizmente. Foi preciso (e continua a ser, é uma parte central do nosso trabalho) educar, mostrar como é simples planificar a compra, pensar antes, planificar a compra ainda em casa, perceber que podemos reutilizar os recipientes em que guardamos os alimentos. Fomos acolhidos com muito carinho e com muita curiosidade. Havia pessoas que vinham por ser um espaço novo, outras por quererem comprar biológico, outras ainda que se renderam ao facto de ser a granel e, ainda mais especial, outras porque ao entrar na loja convocavam as memórias olfativas de infância e das antigas mercearias tradicionais, de bairro. Todos estes factores contribuíram para o sucesso. Houve outro aspeto decisivo: as pessoas que nos visitavam começaram a partilhar o gesto da compra a granel e da reutilização de recipientes; faziam-no (e fazem) com orgulho nos seus blogues e redes sociais. Isso foi muito importante, contribuiu para transformar uma prática mais ecológica em algo cool – o poder da eCOOLogia.

 

Acredita que o consumo se tem tornado mais consciente?

Sem dúvida, e, estando no mercado há cinco anos, vimos nitidamente uma viragem em 2018, graças não só a cada vez mais propostas, conceitos no mercado que facilitam a transição ecológica, mas também porque temos cada vez mais vozes ativas, seja a título individual ou coletivo, seja em termos de comunicação social.

 

O que falta fazer ainda?

Penso que precisamos de dar mais informação e com mais transparência ao consumidor, para que ele possa, dotado dessa informação rigorosa, validada e isenta, fazer escolhas mais conscientes. Não podemos exigir das pessoas um consumo mais responsável se as próprias marcas não comunicam bem as suas opções e todo o ciclo de vida dos produtos que colocam no mercado. Na Maria Granel, esse é o principal objetivo para 2021, algo que iniciámos e que temos vindo a tentar fazer melhor no nosso site e loja online. Um dos objetivos do desenvolvimento sustentável, estabelecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas, é a Produção e Consumo Sustentável (Objetivo 12), estando inerente a este objetivo a necessidade de garantir ao consumidor informação sobre os impactes ambientais decorrentes dos produtos que consome, o que lhe permitirá tomar uma decisão consciente e informada no ato de consumo. Nesse sentido, pedimos à Ponto Verde Serviços uma análise do desempenho ambiental dos nossos produtos, com base nos indicadores relativos à Emissão de Gases com Efeito de Estufa gerada no transporte do produto entre o local de produção e o ponto de venda e à pegada hídrica. Além disso, pareceu-nos fundamental dar a conhecer, sempre que possível, o ciclo de vida dos produtos, rastreando todo o seu trajeto, e a história de quem os produz.

 

Sempre teve preocupações com a sustentabilidade?

Não, de todo. Durante muito tempo, a minha vida foi pautada por um consumo excessivo e irresponsável, apagado de qualquer consciência ambiental e totalmente desvinculado de uma preocupação com a sustentabilidade do planeta. No meu passado, não há qualquer vestígio de ativismo ambiental. Bem pelo contrário. Eu era a personificação de um pequeno desastre a esse nível, dado o meu estilo de vida: todos os meses corria para as lojas de fast fashion e esbanjava uma parte muito significativa do meu ordenado em roupa e sapatos. Além da moda, a delapidação ia mais longe e incluía cremes, perfumes, artigos e serviços de beleza. Quando chegava a casa, o impulso dava lugar ao vazio, a felicidade instantânea da aquisição dava lugar à angústia da acumulação sem sentido. Tinha o armário cheio, mas não me conseguia ouvir nem encontrar em tanto ruído, em tanto estímulo. O meu único contributo — pensava eu na altura — era reciclar, e esse gesto enchia-me as medidas, aplacando-me a culpa de consumir tanto. A minha infância, no entanto, foi de profunda comunhão com a natureza e de respeito absoluto por esse elo sagrado — algo que eu só valorizaria depois. Venho de fora, como tanta gente que mora em Lisboa. Sou minhota, cresci entre levadas graníticas e granjas abundantes, entre o milho e a vinha, no regaço verde da aldeia. Pertenço a uma família de gente do campo, que nele trabalhou e nele encontrou sustento durante várias gerações. Só mais tarde, graças à Maria Granel, viria a resgatar estas raízes e a honrá-las.

 

Como é o seu estilo de vida fora da Maria Granel?

Orientado pelos mesmos valores; procuro ao máximo, na minha imperfeição e com consciência de que que posso fazer muito mais, viver com menos e produzir menos desperdício, consumindo de forma mais consciente. 

 

O ano 2020 teve muitos desafios para todos, pode partilhar alguns dos desafios que teve e contar como os superou?

Muitos, foi um ano cheio de desafios – pessoais e no negócio. Por um lado, a nossa principal preocupação, face à pandemia e ao estado de emergência, foi garantir postos de trabalho, apesar da redução de horário nas lojas físicas. E conseguimos. Aliás, foi muito gratificante, porque acabámos por descobrir novos talentos e explorar novas áreas. Temos uma colaboradora nossa que passou a criar também conteúdos para o nosso blogue. E, por outro lado, foi um período de aceleração de ideias que já estavam há muito nos nossos planos e que foram finalmente postas em prática: queríamos chegar a casa das pessoas que estavam impossibilitadas de frequentar a loja, lançámos as entregas e a expedição de todos os nossos produtos para todo o país. Tenho muito orgulho nesta transformação. É uma lição muito importante, reforça a ideia de que nunca podemos baixar os braços, de que é essencial olharmos para os sinais do tempo e para o mundo, saber interpretá-los e seguir também a nossa intuição. Em termos pessoais, foi o ano da publicação do meu livro, Desafio Zero, em fevereiro, e fico feliz, porque sinto que, de alguma forma, tem sido uma ferramenta útil na caminhada e na transição ecológica de muitas pessoas.

 

Existem alguns projetos para 2021?

Sim, muitos sonhos, muitas ideias. A minha cabeça não para. Há um, em particular, que espero que se realize em 2021 e que passa pelos Açores.