Informação sustentável para uma vida mais consciente

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UMA conversa com

Entrevista sem pressa
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Mariana Saavedra

Fair News

Francisca Choe é uma rapariga de 26 anos, de Maputo, Moçambique. Está a terminar a sua licenciatura em Gestão Educacional e tem trabalhado ativamente com o Girl Move Academy Project, com o objetivo de lutar contra o abandono escolar feminino. Conversámos com ela sobre este projeto, os seus sonhos e a sua paixão pelo trabalho comunitário e a moda sustentável

O que é o Girl Move Academy Project?
É uma organização baseada em Moçambique que desenvolve um modelo educacional com o objetivo de reduzir o abandono escolar feminino, tentando quebrar esse ciclo social e cultural que existe em Nampula. É um projeto dividido em três programas: Believe (acreditar), que ajuda raparigas dos 12 aos 15 anos a terminar a escola básica, através do exemplo das assistentes do projeto e das mentoras da academia; Lead (liderar), em que é dado treino especializado às raparigas de Nampula que estão a fazer os dois últimos anos do ensino superior, para que se possam tornar mentoras das raparigas mais novas, ajudando no projeto Believe; e Change (mudar), uma experiência intensiva de um ano, durante o qual as raparigas mais velhas vão para Nampula ajudar a implementar os projetos Believe e Lead, enquanto recebem treino sobre liderança e empreendedorismo social. Nos últimos quatro meses deste programa, vêm para Portugal trabalhar com empresas relacionadas com o seu projeto final.

Que trabalho fez com a comunidade de Nampula?
Estou envolvida no projeto Change como uma girl mover. Nesses oito meses em Nampula, costumava ir duas vezes por semana a uma escola ajudar no programa Believe. O nosso objetivo foi criar um ambiente seguro para as raparigas aprenderem, para que pudessem não abandonar a escola. Tentei ser uma mentora e também uma amiga, fazendo-as sentirem-se confortáveis para partilharem as suas dificuldades e também as suas vitórias. Éramos um grande exemplo para elas, passando uma mensagem: “Se queres mudar a tua realidade, tens de continuar a ir à escola”. Aos sábados, dava treino a futuras mentoras, em torno de quatro temas principais: o desenvolvimento pessoal, para ganharem noção do seu valor, para se auto-motivarem, para gerirem as suas emoções, conhecerem os seus direitos e conseguirem contar as suas histórias e as de outros; desenvolvimento académico, com a gestão do tempo, o desenvolvimento de um projeto de vida, a compreensão de porque vale a pena estudarem, a comunicação oral e escrita, o relato de experiências pelo mundo e o estudo em grupo; desenvolvimento vocacional, tentando definir objetivos e perceber como podem ter impacto, conhecer o país onde vivem e as suas necessidades, aprenderem a preparar um currículo ou como escrever uma carta de motivação; e trabalho de equipa, melhorando a comunicação interpessoal, fazendo team building, gestão de conflitos, encontrando soluções criativas para resolver problemas e alimentando a empatia.
Também tive a oportunidade de testar o meu projeto final, através da organização de um desfile de moda em que mostrei à comunidade que peças de roupa feitas de capulana podem fazer um guarda roupa bonito, atual e sustentável – e, mais importante ainda, acessível a vários níveis económicos.

Que momentos significativos guarda do que ali viveu?
Um dos momentos mais significativos foi quando visitei a casa de uma das raparigas. Foi logo no início da minha estadia em Nampula. Tínhamos sempre de pedir permissão aos pais para as raparigas participarem no nosso programa e, muitas vezes, íamos com os mentores locais, mas dessa vez fui sozinha com a rapariga. Ela costumava andar a pé uma hora e meia da sua casa para a escola. Lembro-me que caminhámos aquilo que me pareceu horas e horas e quando estávamos quase a chegar tivemos de atravessar uma montanha através de uma grande floresta em que ela me ajudou a ir pelos trilhos até chegarmos a uma casa feita de argila e canas. Os pais dela receberam-me com alegria e percebi, de imediato, que eram uma família com dificuldades financeiras. Perguntei-lhes se ela podia participar no nosso programa e o pai disse logo que sim. A rapariga tinha uma irmã gémea que desistiu da escola por ter engravidado e só estudou até ao segundo ano do ensino básico. A família agradeceu-me, oferecendo-me um saco de amendoins. Tentei dizer-lhe que não era necessário, mas insistiram. Era a única forma que tinham de me retribuir a ajuda que estava a dar à filha. Este gesto sensibilizou-me muito. Durante o tempo em que estive em Nampula, percebi que a maioria das pessoas com dificuldades financeiras eram as mais generosas. O que queriam era agradecer-nos por apoiarmos os seus filhos, com aquilo que tivessem para nos dar.

O que a motivou a começar o seu projeto de moda?
Quando cheguei a Nampula, percebi que a única fonte de rendimento das famílias vinha dos homens, deixando as mulheres a tomar conta da casa e dos filhos. Do meu ponto de vista, este traço social e cultural era negativo, não apenas porque o rendimento da família é menor do que poderia potencialmente ser se as mães também trabalhassem, mas também porque define um modelo errado para as filhas, dizendo que não faz mal deixar a escola e falhar a educação. Para mim era importante começar um projeto que ajudasse a criar rendimento e que fosse sustentável. Sou apaixonada por moda e pelo trabalho em comunidade, então decidi juntar os dois. Foi quando surgiu a ideia para o meu projeto final, a que chamei “projeto de vida com impacto”. Ainda estou a desenvolver algumas ideias, mas a ideia é usar restos de tecidos de capulana e criar novas peças com um design único e intemporal. O meu objetivo é ensinar mulheres de comunidades vulneráveis, para que um dia possam fazer parte da produção destas peças, criando oportunidades de trabalho seguro e ajudando a ser uma fonte de rendimento para essas famílias.

O que é preciso fazer em Moçambique, em termos de sustentabilidade social e ambiental?
Em Moçambique há dois pontos críticos que realmente me preocupam. O primeiro é o baixo investimento na educação. Cerca de 45% da população moçambicana é iliterada, o que torna os moçambicanos muito vulneráveis às dificuldades económicas. Parte disto é responsabilidade das condições limitadas em que vivem certas populações e do pouco que as escolas locais proporcionam. Penso que o investimento não está bem distribuído, estando muito concentrado nas grandes cidades. Precisamos de equilibrar isto e perceber que as outras regiões também deviam ter direito às mesmas condições de educação que eu tive em Maputo. O outro ponto está relacionado com a poluição nas grandes cidades, que está a destruir a beleza natural do meu país. Não é suposto irmos à praia e termos garrafas, embalagens e fraldas espalhadas pela areia. A reciclagem também é um conceito desconhecido para a população moçambicana. É crucial investir tempo e recursos a educar as pessoas, porque não existem boas práticas sem educação. Ainda assim, tenho esperança que a educação e o trabalho árduo possam implementar mudanças na minha comunidade. O turismo está a crescer e trouxe melhorias. E espero que isso continue, sempre respeitando a cultura do meu país.

Tem um objetivo na vida?
É uma pergunta difícil. Neste momento, o meu principal objetivo é estar envolvida em projetos com impacto social, especialmente em comunidades com mulheres vulneráveis, e promover o interesse em torno da sustentabilidade em Moçambique, começando pelo primeiro passo: reduzir o consumo.

Se lhe pedissem um conselho, o que diria?
Uma amiga costumava dizer uma frase, citando o Papa Francisco, de que nunca me esqueci: “A vida é boa quando estamos felizes. Mas é ainda melhor quando fazemos os outros felizes.” E este é o meu conselho: façam o bem e o bem virá ter convosco.

www.girlmove.org