Informação sustentável para uma vida mais consciente

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Uma conversa com

Entrevista sem pressa
Book Gang
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Sofia Dezoito Fonseca

Fair News

És uma das personalidades mais emblemáticas do panorama literário juvenil atual. Na tua opinião achas que conseguiste, através das redes sociais e do teu estilo literário, chegar a uma faixa que de outra forma dificilmente teria o mesmo interesse pela leitura?

Antes de mais, não lhe daria o cunho juvenil, de todo. Esse cunho já fomenta uma separação dos demais, como se os outros fossem géneros mais sérios e esse é já um dos problemas de base do mercado literário em Portugal. Eu acho que consegui, no momento certo, usar o digital para fomentar uma mudança na literatura em Portugal que está estagnada, envelhecida e dolorosamente antiquada. Claro que escrevi um livro Young Adult mas o meu propósito era contar uma história que tivesse o potencial de cativar a geração mais nova para a leitura e, ao mesmo tempo, chegar a um público da minha geração por se rever numa história passada no início do ano 2000, antes das redes sociais e com as dinâmicas sociais que hoje já são tão diferentes. E acho que o consegui.

E com o meu ativismo literário e com o Book Gang, posso ter aberto a porta para uma conversa muito maior do que eu: a forma como a literatura, para sobreviver, precisa urgentemente de se adaptar em Portugal. Os livros têm de estar nas redes sociais, a conversa em torno dos livros tem de ser desconstruída e a única via de se captar a geração de hoje para os livros (tanto os jovens como a geração entre os 25 e os 45 anos que já é uma geração digital e afastada do hábito da leitura) é torná-los modernos, cool e contemporâneos.

E não é isso que está a acontecer. A imprensa, os críticos, os prémios, as bolsas, os festivais, a televisão… continuam a tratar a literatura como uma arte de nicho, de minorias e de elite, afastando-a cada vez mais da geração de hoje e criando um fosso enorme e perigoso que terá consequências gravíssimas na sociedade do futuro.

No fundo, foi para tentar combater isto que Book Gang nasceu: uma comunidade de incentivo à leitura que se transformou num negócio e que, neste momento, já é uma plataforma de comunicação da nova literatura (internacional e em Portugal) e que está a transformar os hábitos de leitura geração digital. Agora só falta dar o próximo passo que é o da massificação.

Para muitas pessoas, não és só a Helena Magalhães escritora, mas também a Helena que zela pelo empoderamento feminino e pela ideia de que devemos ir atrás dos nossos sonhos. Como é ser vista como um modelo a seguir?

A palavra role-model é bastante perigosa e tem uma carga de responsabilidade enorme. E, ao longo das gerações, as mulheres foram continuamente atacadas por não representarem esses modelos que, com a sua voz (a fama por ex), deveriam ser. Há uma entrevista curiosa onde a Britney Spears diz que não deveria ser responsável por criar os filhos das outras mulheres (por, no final dos anos 90, não a considerarem um modelo positivo). E isso aplica-se às novas vozes do digital. Embora muitos influenciadores digitais não tenham qualquer consciência da responsabilidade que deveriam ter (e este tema já são outros quinhentos) enquanto modelos a seguir para milhares de adolescentes e possam, muitas vezes, fomentar comportamentos perigosos, acho que a palavra “modelo” não deveria ser aplicada a ninguém porque somos todos humanos. Eu tento apenas ser uma via de informação.

Gosto de pensar que abro o diálogo e levo as pessoas que me seguem a questionar o mundo que as rodeia. Porque sinto que é isso que falta: que as pessoas se questionem, que leiam, que pesquisem, que se informem em vez de consumirem cegamente tudo o que as redes sociais lhes dão.

Há uma questão que abordas frequentemente, que é a realidade do mercado literário português e da existência de um “lobby literário”. Coloco-te a questão que tu própria já fizeste: “Como penetrar numa elite literária que apenas abre as portas aos demais intelectuais?”

Temos de dar pontapés na porta e parti-la de uma vez por todas. Mas, na verdade, é uma resposta que também não sei como dar. Eu já sinto que há mudanças. Ter ficado em segundo lugar nos prémios Bertrand (votados pelo público e não por um grupo de críticos) foi uma chamada de atenção para as mudanças de que esta indústria precisa em Portugal. Abrir as portas às novas vozes não significa que se vão desvalorizar as grandes já estabelecidas. Costumo fazer uma comparação simples que serve de analogia: não obstante a música clássica ser considerada a arte musical de maior valor, é o pop, o rock, o R&B, o rap e por aí fora que chega às massas. A literatura clássica segue a mesma linha de pensamento: não lhe tirando o mérito que ela tem, não é isso que as massas querem ler. E a literatura tem de se adaptar à geração de hoje ou corre o risco de desaparecer. E enquanto lá fora, estas mudanças já estão profundamente enraizadas, temos grandes escritores de literatura moderna a vender milhões e a serem reconhecidos pela sua escrita (sendo boa ou má, literária ou não) e a forma como captam novos leitores, aqui continuamos agarrados ao velhinho saudosismo dos herdeiros de Saramago. A única forma de penetrar é continuar a falar sobre isto. Que é o que estamos a fazer agora. Temos de continuar a gritar.

Não obstante esta realidade, os teus livros têm sempre muito êxito e são best-sellers. Isso deixa-te mais tranquila sobre estares no caminho certo ou mais frustrada por continuar a haver essa falta de abertura do mercado?

Por um lado, deixa-me tranquila. Sinto que estou no caminho certo e que estou a abrir as portas para a nova literatura. Mas, por outro, deixa-me profundamente frustrada a forma perniciosa como o mercado me rejeitou e continua a rejeitar as novas vozes. Nenhum jornal, revista, programa de televisão quis receber-me ou divulgar o meu livro.

Além disso, a falta de representação feminina, e acima de tudo jovem, na literatura portuguesa tem sido devastadora. Nomes sonantes não nos faltam: Florbela Espanca, Judith Teixeira, Irene Lisboa, Maria Archer, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maria Teresa Horta, Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Agustina Bessa-Luís, Maria Ondina Braga, Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Alice Vieira e nomes mais recentes como Dulce Maria Cardoso, Inês Pedrosa, Patrícia Reis ou Alexandra Lucas Coelho. Todas elas marcaram a sua época e tiveram um papel indescritível no panorama português e na forma como a voz das mulheres foi transformadora. Mas e hoje? E as vozes jovens? Continuamos a calar e a desvalorizar as vozes de hoje neste propósito saudosista de tornar a literatura uma arte de elite e de minorias. Quantas mais raparigas vão crescer sem ver mulheres jovens na literatura portuguesa a anteceder os seus passos e a abrir o seu caminho? Quem serão as escritoras do futuro se, hoje, o mercado nos fecha continuamente as portas, desvalorizando brutalmente a nossa voz?

És fundadora do HM BOOK GANG. Quantas pessoas fazem já parte deste clube literário? Qualquer pessoa que queira fazer parte o que tem de fazer?

O Book Gang é uma comunidade, clube do livro por assim dizer. Qualquer pessoa se pode juntar, seguir a comunidade, acompanhar as leituras do mês, subscrever e, todos os meses, receber a sua box com os livros do mês. Todos os meses escolho 2 ou 3 livros (essencialmente novidades publicadas em Portugal) entre o que de melhor está a sair em termos de literatura moderna e que incentiva para a leitura.

Aquilo que mais me dizem é que, por um lado, as pessoas que não liam um livro há anos estavam, essencialmente, desmotivadas, não liam livros que gostassem e não encontravam boas sugestões. Este é o ADN do Book Gang: trazer livros profundamente cativantes e modernos. E por outro, constrói-se aquele impulsionador de grupo, de se ler em comunidade que é motivador.

Criaste entretanto a MAGAPAPER. Como surgiu a ideia de fazer uma marca de papelaria, feita à mão e com materiais sustentáveis made in Portugal? No fundo, não havia nada do género feito cá, certo?

Eu queria criar um Book Journal, um diário de leituras, porque sentia que era algo que faltava no mercado em Portugal. A ideia de um diário para irmos tirando notas das nossas leituras foi algo que sempre fiz desde criança e não entendia como é que ainda nenhuma marca de papelaria tinha apostado nisto.

Andei um ano e meio a tentar arranjar forma de criar um e a grande dificuldade foi mesmo a parte gráfica: encontrar quem me criasse o produto físico final porque todas as gráficas me pediam um mínimo de produção de 1500 exemplares. Não fazia sentido fazer 1500 book journal todos iguais (eu queria capas diferentes, claro) quando nem sequer sabia se iria haver adesão ou interesse. Foi quando, no Verão de 2019, decidi ir aprender a fazer papelaria à mão e explorar a ideia de fazer um produto handmade. Estava longe de imaginar que se iria tornar mesmo uma coisa séria. Em Setembro, fiz uma pequena coleção de 50 book journals ainda muito amadores, sem qualquer qualidade porque ainda estava a aprender e a descobrir os melhores materiais. Mas vendi-os todos no próprio dia. E nasceu a Magapaper.

Achas que vais conseguir manter a MAGAPAPER a funcionar desta forma artesanal durante algum tempo? Ou é provável que venhas a precisar de ajuda para aumentar a tua produção?

Tenho a perfeita consciência que não vou conseguir, de todo, manter a Magapaper neste prisma artesanal. Já tive convites de inúmeras lojas para vender, de gráficas para produzir a Magapaper mas, por enquanto, tenho-me mantido inflexível nesta minha ideia de a manter artesanal e totalmente feita com materiais ecológicos, reciclados ou de pequenos fornecedores nacionais para tentar ter uma pegada ambiental mínima. A única coisa que não é ecológica, por enquanto, é o material com que tenho de forrar as capas (porque é uma película de plástico mate).

Mas sei que vou ter de arranjar mais mãos para produzir porque as minhas já estão todas calejadas (sorriso).

Tens aproveitado o confinamento para escrever mais? Podemos esperar um novo livro para breve?

Sim, tinha planos de lançar 2 em 2021 mas com o Book Gang e a Magapaper não devo conseguir. Mas isso também é bom. Pessoalmente, sinto que os escritores que lançam livros todos os anos correm o risco de cansar. Há que manter uma chama de desejo acesa.

Que outros projetos tens em mente para 2021?

Massificar o Book Gang a nível nacional. É o meu grande objetivo (sorriso).

https://www.helenamagalhaes.com/

https://www.magapaper.pt/