Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

HISTÓRIAS QUE NOS INSPIRAM

Marcas, pessoas, projetos e objetos​
Inês Alves

Sofia Dezoito Fonseca

Fair News

 

A Inês escolheu o nome “Ovelha Verde” para o seu projeto. Conte-nos a história por detrás dessa escolha original.

Normalmente, a “ovelha negra” é aquele membro da família que se destaca dos restantes, muitas vezes, porque o seu comportamento se desvia da norma.

Foi assim que eu me senti no início. Quando, há 5 anos, deixei de comer carne e de comprar bens desnecessários, saí daquilo que era considerado normal pelas pessoas que me rodeavam. Nessa altura, senti várias vezes que as pessoas não me compreendiam e achavam estranha a minha maneira de ver o consumo.

O seu projeto é relativamente recente, mas contem muita informação relevante para quem quer seguir um estilo de vida mais equilibrado e sustentável. De onde surgiu a ideia e a necessidade de dar “voz” à Ovelha Verde?

A minha motivação surgiu essencialmente da necessidade de informar sobre temáticas que estavam a ser negligenciadas e combater a desinformação. Por vezes, aquilo que, à partida, parece mais sustentável, não o é. Existem muitas condicionantes no que toca à escolha de opções de consumo mais sustentáveis e o conhecimento e a capacidade crítica são fundamentais neste processo.

Além disso, acho importante inspirar pelo exemplo. Existem estudos que indicam que quando partilhamos com os outros as emoções positivas (como alegria, orgulho ou prazer) de realizar uma ação sustentável, aliciamos o desejo de integrar o grupo pró-ambiental, o que pode traduzir-se numa maior taxa de adoção do comportamento sustentável desejado. Com o projeto da Inês, ovelha verde espero contribuir para a normalização deste estilo de vida e influenciar outras pessoas a adotar práticas mais sustentáveis.

Defende um consumo circular, sem desperdício e com propósito e planeamento. Para quem acha que isso é difícil de pôr em prática que conselhos daria? Por onde se pode começar?

A maior implicação de ter um estilo de vida circular é deixar de ter bens materiais próprios e optar por partilhar. Portanto, considero que, acima de tudo, é necessária uma mudança no mindset, para que comecemos a pensar de maneira mais colaborativa.

Na prática, um estilo de vida circular reflete-se em vários aspetos da nossa vida, desde partilhar roupa, optar por transportes partilhados, vender o que já não tem utilidade para nós, comprar em segunda-mão, alugar em vez de comprar, optar por arranjar, reparar ou pedir emprestado em vez de comprar novo, fazer compostagem, entre outras.

Para sabermos por onde começar, devemos refletir sobre aquilo que faz sentido para nós abdicar, mas sempre tendo em mente que não dá para todos nós termos tudo. O planeta não aguenta. Para esta reflexão, podemos fazer um exercício que consiste em pensar em 3 aspetos que não nos importávamos de abdicar e outros 3 que não abdicaríamos por nada, por exemplo, podemos estar a falar de ter um carro próprio, viajar de avião, ter uma dieta vegetariana estrita, ter um computador pessoal, ter uma máquina de lavar a roupa em casa, comprar roupa em segunda-mão, etc. Todos nós somos diferentes e temos necessidades distintas, por isso, cabe a cada um de nós refletir e decidir por onde começar.

Na opinião da Inês, que políticas seriam urgentes mudar de forma a criar impacto imediato para contribuir para um mundo mais sustentável?

De um modo muito sucinto, é necessário parar de destruir. Temos de parar de destruir espaço de floresta para a construção de empreendimentos ou instalações de grupos económicos. Pelo contrário, é necessário conservar e gerir estes espaços de forma sustentável, reconhecendo o valor que estes têm no suporte à vida.

É ainda necessário que a legislação deixe de proibir ou dificultar a adoção de práticas mais sustentáveis no setor privado e residencial, por exemplo, quanto à valorização de subprodutos de indústrias e reutilização de águas cinzentas. Pelo contrário, estas práticas deviam ser incentivadas.

Por outro lado, acho que é mesmo urgente nós, países ditos desenvolvidos, ajudarmos os países em vias de desenvolvimento a construir infraestruturas para a produção de energia renovável pois se estima que a maioria dos GEE que serão emitidos, no futuro, provenha destes países.

Investir em cidades mais inteligentes e resilientes parece-me também ser fundamental. Com cada vez mais pessoas a migrarem para as cidades, é importante criar soluções que permitam reduzir a quantidade de lixo que se gera. Além disso, é importante apostar na agricultura biológica nas imediações das cidades, de preferência que utilizem o composto produzido pelos habitantes. Também ao nível dos transportes partilhados e da mitigação das alterações climáticas devem ser feitos esforços.

Por último, acho que falta uma consciência generalizada e transversal a toda a sociedade para a gravidade da situação em que estamos. É necessário perceber que estes problemas têm causas antropogénicas. Esta ligação causa-efeito tem de ficar clara e, para tal, podem-se montar campanhas de comunicação com vista a sensibilização a população e o incentivo da mudança de comportamento.

A par disto, muitas outras medidas podiam ser referidas, pois ainda temos um longo percurso para percorrer.

Li que gostaria de um dia vir a trabalhar na Nações Unidas. O que gostaria de fazer nesse âmbito? O que ainda falta fazer e já deveria ter sido feito por esse tipo de organismos internacionais?

Trabalhar com impacto é muito importante para mim. É, neste sentido, que gostava de trabalhar para as Nações Unidas.

Acho que trabalhar nas Nações Unidas é uma missão muito nobre. Por outro lado, acho que também deve ser um trabalho muito inglório e constituído de pequenas vitórias. É uma organização mundial que tem muita responsabilidade, no entanto, cada país tem a sua soberania, pelo que muitas vezes deve ser difícil atingirem os objetivos que ambicionavam, porque não está tudo nas suas mãos. Porém, de um modo geral, acho que têm feito um bom trabalho!

Considera-se uma ativista ambiental?

Ainda me sinto muito confortável dentro da minha “bolha” para me considerar uma ativista. No meu ponto de vista, para seres ativista tens de te entregar a 100% a uma causa e acarretar com as implicações reais e pessoais que advém dessa escolha. Ao partilhar informações sobre sustentabilidade na minha página, estou a consciencializar mas não me estou a expor nem a comprometer-me a um ponto em que os meus valores prejudiquem a minha vida. Ou seja, sem dúvida que defendo o ambiente no meu dia-a-dia, mas considero que faço um trabalho de formiguinha e sem sacrifício pessoal, pelo que não me considero uma ativista.

Que projetos ou novidades podemos esperar por parte da Ovelha Verde?

Tenciono começar a partilhar mais sobre a minha vida pessoal e ter um papel mais ativo e interventivo para a mudança.

Além disso, quero partilhar novas maneiras de viver de modo circular através dos projetos circulares que vão surgindo.

Siga o trabalho da Inês aqui,