Informação sustentável para uma vida mais consciente

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Inquérito para quatro estações
Fair News

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Marta Marques Pereira tem 33 anos, é de Lisboa mas na sua cabeça vivem muitas geografias. Formada em economia, seguiu a intuição de trabalhar para promover a harmonia no local de trabalho de cada um e garantir que é um espaço onde se pode prosperar. Para isso certificou-se em coaching há quatro anos e trabalha com equipas e grupos. Apaixonada pela natureza, não dispensa o equilíbrio dos seus cristais.

Qual o hábito sustentável de que mais se orgulha?
A compra de roupa em segunda mão. Há cerca de cinco anos comecei a ficar muito consciente da quantidade de roupa que é produzida no mundo e do impacto ambiental que a indústria tem. Na altura, estive um ano e meio sem comprar nada e depois comecei a comprar muito menos. Agora compro quase tudo em segunda mão.

Qual a mudança ecológica que quer fazer mas ainda não conseguiu?
Gostava mesmo de eliminar os descartáveis. Ainda consumo bastante plástico e, por vezes, é frustrante a sensação de não se conseguir fugir dele. Tento, por exemplo, ir ao mercado aos sábados de manhã, em vez de ir ao supermercado onde compraria tudo em embalagens. Mas sei que ainda não é suficiente.

Qual o seu objeto “verde” preferido?
O copo vaginal. Veio mesmo revolucionar o impacto ambiental que as mulheres podem ter.

Quem a inspira?
Não preciso ir longe, basta ir ao meu círculo de amigos. Tenho a sorte de ter muitos amigos inspiradores. Tenho muita gente à minha volta que acredita numa causa e desenha a sua profissão e estilo de vida à volta dela. Tenho amigos a sair de Lisboa e a criar negócios no campo, por exemplo. Chamo-lhes coerentes, porque quase tudo na sua vida parece ser coerente com o que são. Lembram-me constantemente que também podemos todos ser assim.

Que livro e que filme lhe foi inspirador?
Ui, esta é uma pergunta difícil porque leio bastante. Gostaria de partilhar um: O Colosso de Maroussi, de Henry Miller. É sobre uma viagem que ele faz quando tira um ano sabático e vai para a Grécia. Tem tiradas e reflexões simplesmente fantásticas, como esta: “At that moment I rejoiced that I was free of possessions, free of all ties, free of fear and envy and malice. I could have passed quietly from one dream to another, owning nothing, regretting nothing, wishing nothing. I was never more certain that life and death are one and that neither can be enjoyed or embraced if the other be absent.

Em que lugar se sente feliz?
São muitos os lugares, felizmente. Mas, sem dúvida, onde me sinto mais feliz é a caminhar, a fazer o Caminho de Santiago ou hikes nas montanhas. O meu pensamento fica muito cúmplice do meu coração e chego sempre a conclusões que me transformam.

O que mais valoriza nas pessoas à sua volta?
Pessoas alegres e otimistas e que acreditam que os resultados dependem de si. Pessoas que não culpam os outros e que não se culpam si mesmas. Pessoas que não têm medo do sucesso dos outros, que encorajam e apoiam sempre. Pessoas que são gratas pelo que têm, mas que são movidas pelo sonho. Pessoas que tem muito cuidado na forma como tratam o  outro e que são generosas. E, mais uma vez, pessoas alegres. O humor para mim diz quase tudo sobre uma pessoa.

Qual a maior liberdade a que podemos aspirar?
Liberdade é podermos estar em contacto com o nosso sentido crítico e dar-lhe voz. Sinto que este ano tornou bem visível a polaridade em que vivemos: pendurados num espetro que vai da liberdade ao medo. Infelizmente este ano oscilámos para o medo e fizemos lá ninho. Mas acredito que se continuamente estivermos atentos ao que pensamos ou sentimos, e não ao que recebemos por osmose dos outros, se dermos voz ao que o nosso sentido crítico pensa, então caminharemos no espetro em direção à verdade.

Qual a sua visão de um mundo melhor?
Gostaria de ver mais restrições e atenção à indústria e distribuição alimentar. Vemos práticas de embalagem e acondicionamento de produtos que são aos olhos de muitos inaceitáveis: frutas que são embaladas à unidade em plástico, por exemplo… Já muitos de nós esperam por uma regulamentação mais pesada e atenta sobre a forma como os produtos são embalados.

Se o Planeta nos pudesse falar, o que imagina que nos diria?
Diria que tem confiança em nós. Diria que tem confiança na nossa capacidade para olharmos para as soluções que já existem para os problemas que criámos. Diria para nós pararmos de nos lamentar, para pararmos de nos focar no que já fizemos de mal, para fazermos o melhor que já sabemos que conseguimos fazer e para ajudar os outros a fazer melhor. Sinto que hoje o discurso “verde” está coberto de um tom acusatório. Muitas vezes este tom traça uma linha e cria uma divisória entre os que já estão atuar e os que ainda não incorreram em mudanças e se tornaram mais “verdes”. Cria separação. Precisamos de um discurso mais inclusivo e mais encorajador. O planeta diria para dizermos uns aos outros: “nós conseguimos juntos.” É necessário criar um mundo em que as pessoas pertençam a comunidades e grupos fortes, espaços seguros em que as relações são genuínas, porque cada pessoa consegue conhecer-se e entregar o verdadeiro que há em si ao outro. Um espaço em que a troca constante de ideias, sentimentos, emoções, necessidades e generosidade garanta o crescimento positivo de cada um. Este espaço pode ser a casa, o bairro, a cidade, o Instagram, a empresa, a família ou os grupos de amigos.