Informação sustentável para uma vida mais consciente

Informação sustentável para uma vida mais consciente

UMA CONVERSA COM

Entrevista sem pressa
Sara ds Diniz

Sofia Dezoito Fonseca

Fair News

Sara tem 38 anos e é enfermeira, mas foi numa vida mais slow e numa arte milenar (o tingimento de tecidos naturais) que encontrou um dos seus propósitos de vida. Criou o projeto Sara ds Diniz para poder partilhar com o mundo esta sua paixão e tem sido um verdadeiro sucesso.

É inevitável começar já por perguntar: a Sara é enfermeira e imagino que tenha uma vida bastante atarefada. Como é que consegue conjugar uma profissão tão exigente com o seu projeto pessoal?

O facto de trabalhar por turnos facilita imenso. Todos os dias de folga são dedicados ao projeto e no meio disso tudo ainda arranjar tempo para namorar, visitar a família (agora menos vezes com esta situação toda evito ao máximo infelizmente, também por causa da minha profissão). Tenho muita ajuda do Dinis também, principalmente no que respeita à organização da casa, para ficar mais livre para me dedicar à Sara Ds Diniz.

O seu projeto Sara ds Diniz é algo inovador em matéria de sustentabilidade. Fale-nos um pouco sobre ele.

Sara ds Diniz nasce de um desacelerar, de uma necessidade extrema de criar, de deixar “marca” com sentido em plena comunhão e conexão com a natureza. Com o que de mais belo esta nos tem para oferecer. Começou por ser um hobbie. Tingia pedaços de tecido antigo, do baú da avó do Dinis para pôr mesas, apreciando também esse momento bonito. O ato de colocar uma mesa cheia de amor e intenção. Ficou a curiosidade de perceber mais acerca desta arte milenar. Pesquisa e algum estudo elevam a vontade de experimentar mais e de ir mais além. Incentivada por vários amigos decidi criar este nome, o meu nome. Alterei o meu IG porque não me fazia sentido dissociar esta arte da minha pessoa. E as coisas foram surgindo. No ano passado, decidi criar uma peça em 100% linho, personalizada para cada cliente, envolvendo as pessoas nesta arte. Em conjunto escolhemos a cor da peça e a mesma ficaria com o nome da futura cliente. Foi uma coleção cápsula, não tinha muito linho disponível pelo que criei apenas 6 peças. Mas a vontade de chegar a mais pessoas e de uma forma que também fosse mais simples para mim, nasceram os scrunchies, feitos a partir de excedentes de linho de fábricas portuguesas e depois os panos decorativos, inicialmente em musselina orgânica e agora também em linho. Considero que ainda tenho um longo caminho no que respeita a tornar a minha marca ainda mais sustentável, mas já me sinto muito feliz em recuperar pedaços de tecido que iriam para aterros e lhes dar uma nova vida, uma nova cor. O meu sonho é ter o meu atelier, onde possa obter toda a energia para tingir através de energias renováveis, por exemplo. Mas tudo a seu tempo. Por enquanto, tinjo de forma tradicional, ao fogão e em panelas de alumínio.

Defende um estilo de vida saudável, sustentável e consciente, mas sobretudo slow. O que podemos todos fazer para vivermos de forma mais tranquila?

Cada um de nós é um ser individual, com necessidades diferentes. Nem todos sentimos que temos de viver mais devagar e de uma forma mais tranquila. Para mim faz-me sentido viver assim, mas pode não fazer para o outro. Temos que sentir dentro de nós essa necessidade, eu senti. Comecei por retirar a maquilhagem da minha rotina, que me ocupava demasiado tempo na casa de banho. Em vez disso, prefiro ter tempo para desfrutar do meu slowcoffee na janela da minha cozinha, apreciando a vida a “correr” lá fora. Teimamos em viver mais depressa que a própria vida. Temos acesso a tudo através de um click e é inevitável que o fast não faça parte das rotinas de cada um. Desligar é prioritário num mundo que teima em viver tão depressa.

A Sara partilha diariamente os seus projetos e o seu slow living. Que impacto têm as redes sociais na sua vida? É algo que ajuda a uma vida mais pausada ou por vezes também podem criar ansiedade e dependência?

Apesar de ter um site (www.saradsdiniz.com) toda a minha comunicação é feita através das redes sociais. No site podem encontrar toda a oferta dos serviços que presto, não só tingimento natural. Sara ds Diniz é muito mais do que pigmentos e tecidos e por isso gosto e faço questão de diariamente partilhar nas redes. Se cria dependência, cria claro. Assim que coloco um produto sei que terei de estar disponível para responder a todas as questões. Mas também cria laços. Este sentido de comunidade. Comprar num site é muito impessoal, apesar do meu estar preparado para venda on-line ainda não chegou esse momento. Mas também sei quando devo parar. Estarmos constantemente on line está longe de ajudar a uma vida mais pausada. Cabe-nos a nós impor limites. Para mim aquela máxima de que se não aparece nas redes é porque não aconteceu, não faz qualquer sentido.

Voltando ao seu projeto. Conte-nos como se processa o tingimento natural dos tecidos e que vantagem podemos ter em optar pelo tingimento de forma natural. É algo que possa ser feito em casa facilmente, ou apenas por profissionais?

É um processo slow que requer alguma preparação. Para tingir não podemos estar com “pressa”. Dedicação, tempo e coração aberto sempre. Os tecidos têm que ser preparados, lavados com detergente natural. Depois passam por um processo de cozedura também com detergente natural, vão ao banho de fixante não químico  (idealmente com folhagem de plantas ricas em tanino). Depois preparar todo o pigmento. Todos os pigmentos são naturais, não há químicos, para já é uma grande vantagem. Não contamina as águas, podemos até regar as plantas com o resta dos pigmentos. Eu costumo congelar para usar numa próxima. 

Haverá coisa mais bonita do que dar uma nova vida a uma peça antiga, com uma nova cor? Atenção, é necessário que a peça seja num tecido 100%, algodão, linho, seda ou lã. As fibras sintéticas não fixam o pigmento. Podemos todos fazer em casa, mas as pessoas acabam por desistir porque lá está, é preciso tempo e tempo é coisa que as pessoas não têm ou teimam em dizer que não têm.

Que projetos podemos esperar da Sara ainda para este ano?

Estou ansiosa por partilhar tudo. Neste momento, estou numa pausa dos meus produtos: scrunchies, panos decorativos, capas de almofada para me dedicar a duas parcerias com duas marcas que adoro. Ainda não posso revelar, mas em breve irão saber. 

E adoraria voltar aos meus workshops presenciais. Espero até ao final do ano conseguir.

E gostaria de terminar com um pequeno conselho para quem quer começar agora um estilo de vida mais slow. O que diria a essa pessoa?

Como disse anteriormente, a pessoa tem de sentir que precisa desse desacelerar. Desacelerar traz vulnerabilidade e nem sempre estamos preparados para isso. 

Às vezes não é preciso grande coisa. Parar, inspirar e expirar profundamente durante uns minutos, ao acordar. Espreguiçar, contemplar a vista da janela. Fazer um slowcoffee. Tudo exemplos que servem para mim mas que podem servir também para alguém. Mas o mais importante é sentir dentro de nós essa necessidade e respeita-la. 

Respeitar o que o nosso corpo nos pede naquele momento. 

 

Siga o projeto da Sara AQUI.