Informação sustentável para uma vida mais consciente

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penso, logo sou sustentável

A opinião de quem sabe: Leila Teixeira
Rafael Albornoz - Unsplash

Leila Teixeira

Ativista Ambiental

13 de maio de 2021 marca o dia em que Portugal começa a viver de recursos emprestados.

Um dos pilares fundamentais do meu trabalho enquanto ativista pelo planeta é ter uma fé inabalável de que ainda vamos a tempo de mudar hábitos, comportamentos e reverter os efeitos nefastos (e que indubitavelmente já estamos a sentir) das alterações climáticas. Tenho de acreditar, para que o meu trabalho faça sentido, que é possível fazer com que as pessoas se interessem por estes assuntos o suficiente para agirem. Infelizmente, é frequente levar uns abanões, de quando em vez, que me fazem voltar a duvidar que isto seja mesmo assim, tornando um trabalho já de si difícil, numa missão quase impossível.

No dia 13 de maio, Portugal e, consequentemente, nós, os portugueses que habitamos neste belo cantinho à beira-mar plantado, ultrapassamos a quota máxima de recursos que o planeta nos dá para todo o ano. Trocado por miúdos, isto significa que estamos agora a viver de recursos «emprestados» ou, se queremos ser factuais, dos recursos que têm sido acumulados desde que a Terra existe. A 13 de maio, Portugal entrou na reserva. E apesar desta reserva ser abundante e ainda não nos permitir perceber os reais impactos deste consumo excessivo, não tardará até que os comecemos a sentir.

Este Dia de Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day, no original) tem-se vindo a assinalar cada vez mais cedo, quer em termos individuais, quer coletivos. Estamos, ano após ano, a extrair, consumir e descartar mais. Estamos a destruir mais, a sonhar com cada vez mais. E, se há coisa que todos sabemos é que é insustentável continuarmos a viver desta forma, ignorando conscientemente os impactos dos nossos atos no planeta e nas gerações futuras – ou, se calhar, não tão futuras assim, não é?
Assustemo-nos todos um pouco em conjunto: nos últimos 3 anos, antecipamos a nossa data de sobrecarga da Terra em mais de um mês. Em 2018, este dia assinalou-se a 16 de junho, em 2019 a 26 de maio, em 2020 a 25 de maio e, este ano, como já vimos, a 13 de maio. Estamos a avançar cada vez mais rápido, numa época em que é imperativo começarmos a fazer inversão de marcha a toda a velocidade.

Olho à minha volta e o que sinto é desalento. Somos alguns a tentar fazer a diferença, muitos a aproveitarem-se dessa diferença, e a maior parte em calma indiferença.
É preciso falarmos mais disto e é preciso que todos comecemos a perceber a urgência destes assuntos! Os danos causados por esta utilização excessiva dos recursos são cada vez mais evidentes a nível mundial, mas principalmente nos países em desenvolvimento: desflorestação, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade e acumulação de dióxido de carbono na atmosfera. Por sua vez, estes danos acentuam e dão origem a fenómenos climáticos adversos, tais como secas severas, incêndios florestais ou furacões, que, por sua vez, contribuem para um aumento de tensões e conflitos, exacerbando as desigualdades a nível mundial.

Segundo um estudo da Associação ZERO, por terras lusitanas, as atividades que mais contribuem para a pegada ecológica são o consumo de alimentos, a contar para 32% da pegada global do país, e a mobilidade, que corresponde a 18% da pegada .

#MoveTheDate
Apesar de não parecer um cenário nada animador, com os países desenvolvidos na dianteira desta corrida rumo ao precipício, a esperança não está perdida: ainda é possível revertermos a continuação da tendência de antecipação desta data. Aliás, se esta data fosse adiada, todos os anos, cinco dias, até 2050 seria possível estar a usar recursos de apenas um planeta Terra. Uma perspetiva bem animadora, mas que implica muito trabalho, compromisso e, sobretudo, uma mudança constante e gradual dos nossos padrões de consumo atuais.
Existem pequenos hábitos que podem ser adotados para ajudar a mover esta data. Se, por exemplo, todos reduzíssemos o consumo de carne em 50%, já conseguiríamos ganhar estes 5 dias extra em cada ano.
A redução no uso de materiais, a promoção da reutilização e a extensão dos tempos de vida dos bens e equipamentos também são pontos fulcrais a ter em conta.

Para ajudar a mover esta data, podemos também:
– Deslocar-nos de forma sustentável: usar os transportes coletivos, andar de bicicleta, a pé, de trotinete e reduzir ou eliminar as viagens de avião.
– Consumir de forma mais circular: é fundamental mudar o paradigma de «usar e deitar fora», muito assente na reciclagem, incineração e deposição em aterro, para um paradigma de “ter menos, mas de melhor qualidade”, com um forte enfoque na redução, reutilização, troca, compra em segunda mão e reparação.
– Reduzir o consumo de proteína animal: os dados para Portugal indicam que cada português consome cerca de três vezes a proteína animal que é aconselhada na roda dos alimentos, metade dos vegetais, um quarto das leguminosas e dois terços das frutas. Aproximar a nossa dieta à roda dos alimentos reduz, de forma significativa, o impacto ambiental associado à alimentação, sendo também mais saudável.

Saibam mais sobre o Earth Overshoot Day e sobre como podem ajudar a mudar esta tendência AQUI.

Juntem-se a esta luta por um planeta mais justo, consciente e sustentável e inspirem a vossa família e os vossos amigos a fazer o mesmo! Mais nunca são demais.