Informação sustentável para uma vida mais consciente

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Marcas, pessoas, projetos e objetos
Vumba

Patrick Dias da Cunha

Gestor

A Vumba é uma pequena empresa familiar que se dedica à actividade agropecuária e turística em São Martinho da Cortiça, uma freguesia do concelho de Arganil.

O desenvolvimento sustentado da região e a preservação da natureza e da biodiversidade estão no centro das preocupações da empresa. Os produtos da Vumba são processados manualmente, sem recorrer a processos industriais e a maior parte da matéria-prima é proveniente da própria exploração. Os principais produtos são o queijo, iogurte e requeijão da marca “Quinta do Carapinhal” – produtos artesanais e biológicos, que utilizam em exclusivo o leite do seu próprio rebanho de ovelhas Serra da Estrela e de cabras Serrana Transmontana – e a “Vumba” – um agroturismo de qualidade, enquadrado num ambiente genuinamente rural e inserido numa propriedade rural com 140 hectares de bosques e pastagens.

A filosofia de gestão da Vumba é influenciada de forma determinante pela memória dos nossos avós, pelo seu amor por esta terra e por todas as coisas bonitas que fizeram e nos deixaram. Procuramos respeitar e honrar essa memória em tudo o que fazemos. De facto, para perceber a Vumba, quem somos e o que fazemos, é essencial perceber de onde vimos. 

 

As Origens

Tudo começou com um casal, Maria Isaura e José Dias da Cunha, ambos nascidos no início do século XX em São Martinho da Cortiça, uma pequena aldeia beirã, e que, muito jovens, partem para Moçambique em busca de uma vida melhor.

Em 1926, a partir da cidade da Beira, José inicia e desenvolve com grande sucesso uma actividade empresarial diversificada na agricultura, indústria e comércio. Na década de 40, José e Maria Isaura regressam a Portugal e passam a viver em Lisboa com os seus dois filhos, José Fernando e António. No entanto, mantiveram-se sempre fiéis às suas raízes beirãs. Nos anos 50, constroem uma casa em São Martinho, precisamente no local onde se situava a casa dos pais de Maria Isaura.

 

Entretanto, José, indo ao encontro da sua paixão pela agricultura e sempre leal à tradição familiar, compra diversas parcelas de terreno agrícolas e florestais que se estendem entre São Martinho da Cortiça e o vale do Carapinhal e passa a dedicar uma parte importante do seu tempo livre à sua quinta, a Quinta do Carapinhal. Para manter a ligação a outra das suas grandes paixões, dá à sua pequena empresa agrícola e florestal o nome de Vumba, uma serra moçambicana de que muito gostava e cujo perfil era parecido com o das serras que circundam São Martinho.  

Numa primeira fase, a actividade agrícola da Vumba consiste na produção de vinho, azeite, produtos hortícolas, pêssegos, peras e ameixas. O destino destes produtos é a família e os amigos. Empresário de sucesso em Lisboa e Moçambique, José encara a agricultura e a Vumba como o seu brinquedo preferido. 

Nos anos 80, os filhos de Maria Isaura e José convertem os terrenos agrícolas em pastagens, constroem um ovil e uma queijaria, instalam um rebanho de ovelhas da raça Serra da Estrela e a Vumba começa a produzir queijo de ovelha. Na década de 80 e de 90, dois grandes incêndios destroem a quase totalidade da floresta da Vumba. A reflorestação privilegia a preservação do ambiente e da estrutura do solo, tendo-se apostado na plantação de carvalhos.

No início da década de 2000, uma parte da propriedade da Vumba é cobiçada por empresas que pretendem explorar um minério valioso chamado caulino, usado para fazer loiças sanitárias. Sabendo que a exploração do caulino causa danos irreversíveis no meio ambiente, a Vumba junta a sua voz aos protestos de cen tenas de São Martinhenses que se opõem com êxito às pretensões daquelas empresas. Essa luta permite preservar a bela paisagem de que agora desfrutamos, bem como a respectiva flora e fauna.

É também por volta desta altura que a Vumba entra numa nova etapa da sua história, apostando, primeiro, na agricultura biológica e na preservação da floresta autóctone e, mais recentemente, no turismo rural.

 

Vumba, um agroturismo biológico

Hoje em dia, os produtos lácteos da “Quinta do Carapinhal” têm a certificação biológica da Sativa e são vendidos em exclusivo nas lojas biológicas e num conjunto seleccionado de restaurantes e lojas gourmet. 

O segredo de um queijo está na qualidade do leite e nas mãos das queijeiras. A Vumba não compra leite a terceiros. Por detrás do queijo “Quinta do Carapinhal” está o seu próprio rebanho – um rebanho de ovelhas da raça Serra da Estrela – um bonito vale de pastagens verdejantes e a vontade de manter vivas as origens e a receita centenária de um dos melhores queijos portugueses, o Queijo da Serra. A mistura do leite das ovelhas, do sal e da flor de cardo é feita manualmente na pequena queijaria da exploração, que, por ano, produz uma edição limitada de 2000 queijos. Este mesmo leite é também a matéria-prima para o fabrico do requeijão e do iogurte de ovelha. 

O desenvolvimento de uma actividade de agroturismo por parte da Vumba, enquadra-se numa estratégia de diversificação das fontes de receita da empresa, procurando, ao mesmo tempo, tirar partido das características da propriedade e do seu meio envolvente, nomeadamente a sua localização, o clima e o património natural e cultural da região. O turismo ajuda a criar condições para que a empresa fosse rentável de uma forma sustentada, tornando-a menos dependente da actividade agro-pecuária, ajudando, em paralelo, a manter os postos de trabalho e a preservar o seu património.

  

Com efeito, o projecto consistiu na reabilitação de antigas instalações de apoio à exploração agrícola (a casa do feitor, a antiga adega e vários anexos), edifícios abandonados e degradados pela passagem do tempo, que foram convertidos em acolhedoras casas de campo. Passar, todos os dias, por aqueles edifícios, olhar para aquela degradação… esse olhar foi a mola que impulsionou o turismo. 

Actualmente, a Vumba é um conjunto de pequenas construções, em formato de aldeia, com capacidade para albergar 16 pessoas dispersas por diversas casas e duas suites. A reabilitação da antiga adega deu lugar a um espaço comum com condições para acolher pequenos grupos. Nesta sala é feita a prova dos produtos regionais, produzidos ou não na propriedade, e aqui são organizadas as visitas às actividades rurais da Vumba ou os passeios de observação da natureza. 

A reabilitação permitiu que estas instalações passassem a ser um polo de interesse e desenvolvimento em S. Martinho da Cortiça, em vez de mais uns edifícios abandonados e entregues ao tempo, iguais a tantos outros que existem na região. A “Vumba-Agroturismo”, em conjunto com a restante propriedade, oferece as condições ideais para o contacto com a natureza, a vivência de um ambiente genuinamente rural e a fruição dos valores naturais e culturais próprios da região. Para além disso, a Vumba é um verdadeiro agroturismo: consoante a época do ano, as pessoas podem participar nas actividades da quinta, (fazer queijo, apanhar azeitona, tosquiar as ovelhas, …), desfrutar dos 140 hectares de bosques e pastagens atravessados por diversos trilhos e caminhos ou simplesmente descansar. 

O caminho da sustentabilidade financeira sofre um forte abalo com o grande incêndio de Outubro de 2017. Com início na Lousã, as chamas atravessam a freguesia de São Martinho, desde a Ponte da Mucela até à Moita da Serra, varrendo toda a propriedade da Vumba, destruindo dois bosques centenários, reduzindo a cinzas o ovil e matando 230 ovelhas. Felizmente, a casa de família e o turismo são poupados e as cabras também se salvam. 

Na sequência do incêndio, a Vumba deixa de poder vender os seus produtos lácteos, vendo-se, assim, privada de uma importante fonte de receitas.  Mas como diz o povo, a necessidade aguça o engenho. Em 2018, a Vumba decide aproveitar o leite das suas cabras, que até então eram apenas utilizadas para a limpeza da floresta, e lança no mercado a primeira gama de iogurtes de cabra genuinamente portugueses, ou seja, iogurtes produzidos em Portugal, exclusivamente produzidos com leite de uma raça autóctone, a Cabra Serrana Transmontana. Recentemente, a Vumba alarga a sua gama de produtos biológicos, começando a produzir queijo fresco de cabra, usando em exclusivo, como sempre, o leite do seu próprio rebanho de cabras Serranas Transmontanas.

Quanto à reflorestação da área ardida, mais uma vez são privilegiadas as espécies autóctones: nos próximos dois anos, a Vumba irá plantar 40 ha de sobreiros, medronheiros e carvalhos.

 

Vumba, uma aposta na diversidade

A aposta da Vumba em espécies florestais e raças autóctones, em produtos feitos à mão, como há centenas de anos atrás, na preservação da natureza e da biodiversidade é, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade: um desafio de rentabilização e uma oportunidade para mostrar que é possível apostar em modelos de desenvolvimento alternativos e sustentáveis.

Com certeza que a escala, os produtos massificados e industriais têm o seu lugar no desenvolvimento de um país, mas não devem tornar-se no único modelo de desenvolvimento, abafando tudo à sua volta. Hoje em dia, apesar do mercado da alimentação se encontrar dominado pela industrialização, ainda vai sendo possível encontrar alternativas, isto é, produtores que teimam em resistir contra o alastramento dos produtos massificados. O modo de trabalho da Vumba alia características verdadeiramente artesanais – cada um dos seus queijos é produzido individualmente, resultando desse processo um produto com características únicas – com um controlo de qualidade desenvolvido à medida das modernas exigências de higiene. Estes produtos artesanais de elevada qualidade são muito apreciados, porque, para além de contribuir para a preservação de tradições seculares, conseguem reunir características naturais, cada vez mais valorizadas, com um gosto excepcional. Com efeito, a manutenção de produtos artesanais de qualidade constitui uma alternativa saudável e sustentável aos produtos industriais, contribuindo para uma indispensável diversidade.

Não é por acaso que o logótipo da Vumba é uma folha de carvalho, uma espécie autóctone de longa gestação e de folha caduca, que simboliza o respeito pela memória dos nossos avós, assim como a perpetuidade, a continuidade e a renovação. Qual o significado, para a Vumba, deste logotipo? A nossa história tem sido uma história de renovação (folha caduca) aliada a um grande respeito pela tradição e em harmonia com a natureza (espécie autóctone); temos feito este caminho por convicção e porque acreditamos que sendo coerentes com estes valores a nossa pequena empresa familiar tem condições para sobreviver de forma saudável (espécie de longa gestação). 

Texto escrito segundo o antigo Acordo Ortográfico