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UMA CONVERSA COM

Entrevista sem pressa
Xico Gaivota

Sofia Dezoito Fonseca

Fair News

Ricardo Ramos é a pessoa que dá vida ao XicoGaivota. Nascido em 1978 e desde sempre com uma forte ligação ao mar, foi com a chegada dos filhos que sentiu a necessidade de partilhar a sua paixão e forma de viver. Hoje, é conhecido pela sua arte que transforma o lixo encontrado nas praias em peças únicas. 

A pergunta é inevitável: de onde surgiu a ideia de criar o projeto XicoGaivota? É uma extensão do Ricardo ou é um projeto completamente inovador na tua vida?

Em primeiro lugar, acho que foi a necessidade de mudança, deixar de tirar, matar e destruir e passar a tratar, cuidar e defender os oceanos. Foi uma mudança muito íntima e pessoal, sem grandes objetivos iniciais. Só passou a ser XicoGaivota depois de ter as paredes cheias de peças e sem qualquer intenção de parar. Por isso, criei o XicoGaivota  para partilhar e depois vender as minhas peças. É sem dúvida uma extensão minha… as minhas peças são o resultado do meu percurso de vida, profissional e artístico. 

Explica-nos um pouco do processo de criação: crias as tuas peças depois de analisar o que encontras nas praias ou pensas primeiro no que queres construir e tentas a partir daí encaixar o que encontras?

O processo de criação está sempre assente nos mesmos princípios: usar as peças tal como as encontrei, sem partir as peças, não usar colas ou tintas, não derreter ou soldar as peças. Basicamente, tentar minimizar o impacto da transformação destes fragmentos em peças artísticas. Embora em alguns casos o processo de criação comece ainda na areia mal vejo as peças, muitas vezes faltam as outras peças do puzzle para poder iniciar a peça.

Os teus filhos tiveram um papel importante na génese deste projeto. Queres contar-nos essa história?

Os meus filhos são a minha vida, é por eles que luto. Quero garantir que eles possam desfrutar da natureza tal como eu o fiz, quero que percebam o mundo real em que vivemos. Após o click inicial, pouco antes do natal, agarrei nos meus filhos e fomos para a praia apanhar peças para construirmos presentes de natal e nunca mais parei. Os meus filhos são os meus maiores companheiros e ajudantes, são o meu combustível, a minha luz. 

Que tipo de lixo se pode encontrar nas nossas praias? Todo esse lixo é possível de servir como matéria-prima ao teu trabalho ou há alguns requisitos?

Encontro todo o tipo de lixo que possam imaginar… tenho peças de todas as divisões das nossas casas, materiais de construção, de pesca, de carros, vindas de outros países, objetos que têm histórias incríveis por contar. Eu ando em zonas não concessionadas, onde o lixo abunda, cobrindo a areia por completo. Eu não consigo apanhar tudo! Criei uma regra, tudo o que toco passa a ser meu e da minha responsabilidade o seu descarte, por isso tudo o que apanho guardo no saco e vai para o meu atelier. Todo o lixo pode servir como matéria-prima! Haja imaginação! Eu para as minhas peças sou bastante selecto no que procuro, mas mantendo-me sempre aberto a novas hipóteses. Basicamente, posso utilizar qualquer elemento de duas formas, ou esteticamente (as peças visíveis) ou estruturalmente (peças invisíveis). 

O que fazes às peças que constróis a partir do desperdício? São vendidas? Qualquer pessoa poderá comprá-las?

Sim, as peças são vendidas, por muito que me custe, só assim posso continuar este percurso. As peças são o meu único rendimento, não tenho apoios para as limpezas de praia, nem para as idas às escolas, por isso, são as peças que suportam toda a operação. Todo o processo desde a recolha à separação, das idas às escolas, responder a email e mensagens, faz com que não tenha muito tempo para dedicar à produção de peças, mas quem compra as peças, percebe que não está só a comprar uma peça de arte, está a apoiar todo um projecto maior. Além disso, estão a comprar uma peça verdadeiramente única, devido à não manipulação das peças individualmente. O todo é a soma de centenas de peças únicas, impossíveis de replicar, com histórias e marcas de guerra incríveis e únicas. Por isso, não, não pode ser qualquer pessoa e muito menos qualquer empresa. 

Admites ter uma ligação forte com o mar, que já existia antes do XicoGaivota ter ganhado forma. Como está essa ligação hoje?

Hoje, essa ligação está muito mais estreita, mais sábia, mais íntima e profunda…. mais nossa! 

Que mensagem gostarias de deixar sobre a importância da proteção dos oceanos à tua geração e às gerações futuras?

Os oceanos são a base da vida no planeta e entre as dezenas de ameaças que sofre, o plástico é apenas mais um.

A minha mensagem é a seguinte: Tu podes mudar o Mundo! 

Todas as nossas ações, escolhas e caminhos têm repercussões e podem ser totalmente inesperadas… para o bem ou mal. Por isso, queiram saber mais, informem-se, questionem-se, ponderem e depois façam a vossa escolha conscientemente. Eu sei que eu, Ricardo Ramos, ao me transformar em XicoGaivota, e sem ser esse o meu objetivo, influenciei, fiz pensar ou que mudassem de hábitos, muito mais pessoas do que imagino. 

A mudança começa em Ti

Saiba mais sobre o XicoGaivota.